Influência digital através da arte, ou Como eu aprendi a parar de me preocupar e amar ser manipulado

É um costume haver uma linha tênue entre ficção e realidade, separando-as de forma difusa como areia e água do mar, mas quando jogamos essa questão para o âmbito do ciberativismo e manifestações culturais, é necessário fazer o questionamento sobre o poder de influência de um sobre o outro: Até onde as duas linhas de visão se misturam? Qual o tamanho da influência da forma que o ciberativismo é retratado na arte para os movimentos reais e como os mesmos influem no compartilhamento de tudo ligado ao movimento artístico?

Mas primeiro vem aquela pergunta de sempre, como definir a arte? Já está indo pesquisar no Google? Então como diria o grande filósofo moderno, João Kléber, PARAÊ! Deixa que a gente explica.

jk04.gif

A verdade que definir a arte sempre foi uma complicação, mas uma das primeiras definições provém de Clive Bell (1914), que analisa que uma obra de arte deve causar uma emoção estética, ou seja, o essencial e qualidade comum de a toda obra de arte é produzir uma emoção. Ideia totalmente diferente da promovida por Morris Weitz em seu trabalho, “O Papel da Teoria na Estética” (1956), onde em linhas gerais explica que não há propriedade ou um conjunto comum em objetos artísticos, como pinturas, música, filmes, obras de arquitetura, etc., portanto um dos maiores erros é tentar conceituar de forma fechada o que seria arte, é perceber que ela por si só é um conceito aberto.

Uma vez com essas duas óticas em vista, qual seria atualmente a forma artística mais vista e compartilhada pelos usuários de internet no Brasil? Bora lá, eu sei que vocês conseguem acertar, apesar de não ser tão óbvio assim. Prontos? Vamos contar até três. Um. Dois. Três. Memes. Sim, memes, aquelas tirinhas ou imagens cômicas que povoam grupos de whattsapp e sua timeline no facebook.

reece

E acredite, existe até um museu para os memes. Apesar de não possuir um espaço físico onde você possa admirar memes sobre o golpista presidente Michel Temer com seu ficante, o projeto acadêmico da Universidade Federal Fluminense cataloga em um amplo acervo todos aqueles memes que você já viu ou não e conta com até mesmo com gráficos com curva de popularidade de cada um acompanhado de uma lista de aplicações e exemplos, curiosidades e menções dos mesmos por órgãos públicos.

A existência de um espaço como esse já era citado por Diana Domingues (1997), onde em seu trabalho, “A arte no século XXI: A humanização das tecnologias”, é explicado que o artista não precisa mais de locais destinados a exposição da arte como galerias e museus, uma vez que há suportes oferecidos pelo ciberespaço e pelas novas tecnologias de comunicação, que ampliam a difusão e a visibilidade da arte.

Dado a grande popularidade e viralidade dos memes, alguém já parou para pensar em como eles podem ser utilizados para indução de pensamentos e condutas por parte de seus leitores?

Há quem defenda que a página de facebook “Corrupção Brasileira Memes” e seus memes de teor político tenham a finalidade de induzir vertentes políticas de seu criador e teria sido uma das várias maneiras utilizadas pelo Movimento Brasil Livre (MBL) durante o processo de inflamar a população reivindicando o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

19430051_588675531520300_5264625386178491704_n

Esse modelo de interação é explicado pelos pesquisadores Deiga de Brito e Cláudio Rocha, que dizem que o grande público pode se envolver na produção, pondo em xeque a autoria, tornando a obra em algo aberto, inferindo que as intervenções do espectador também sejam partícipes do processo contínuo de transformação da obra, emergindo no modelo de comunicação todos-todos.

Em um âmbito mais internacional e sob outra forma influência podemos ver o caso do grupo de ciberativismo Anonymous, que desde que ganharam maior visibilidade midiática, a mesma tem sido amplamente citada e comentada quando o assunto é ativismo digital, seja dentro de veículos televisivos ou impressos, dado sua grande influência no meio, e assim acaba não sendo nenhuma surpresa a existência de um documentário sobre os mesmos.

Intitulado, “We Are Legion: The Story of the Hacktivists” (No Brasil: Nós somos uma legião: a História dos Hackers ativistas, o documentário aborda a origem do grupo, desde o site 4chan, até as maiores “operações” já realizadas pelos mesmos, desde questões de censura online e controle da web, ataques cibernéticos a governos estrangeiros durante o movimento da Primavera Árabe e o fornecimento de suporte técnico para o movimento “Occupy”. Através do documentário e matérias é possível ver que o movimento se enxergam como ativistas e protetores da liberdade de expressão, e tendem a se levantar com maior força quando percebem uma ameaça à liberdade da internet ou à privacidade pessoal, e através dessas veiculações que se criou uma imagem do grupo para os receptores.

blog_wearelegion012

Da mesma maneira essa construção de imagem a partir da arte foi realizada com os ativistas Jullian Assange e Edward Snowden, que foram personagens principais de documentários e adaptações cinematográficas hollywoodianas, respectivamente “The Fifth State” (O Quinto Poder) e Snowden.

É através dessa veiculação artística, que sempre foi poderosa para a construção de imagem, que temos captado e modelado nossas concepções acerca do ciberativismo e sua importância na luta contra questões que se tornam cada vez mais relevantes nos nossos âmbitos sociais.

No Texto, “A Visibilidade e a Difusão da Arte por Meio das Redes Sociais – Estudo de Caso da Fan Page Eu Me Chamo Antônio”, os autores dissertam sobre como artistas anônimos conquistam reconhecimento e reputação simbólica nos sites de redes sociais.

Dentro desse quadro, vemos situações interessantes de filmes feitos com colaboração monetária coletiva (Crowdfunding), inclusive filmes feitos por pessoas dentro de ativismo cibercultural a cerca de ativismo cibercultural, como “Hackitat”. Em um cenário inimaginável de décadas passadas, o próprio espectador passou a ganhar voz dentro de uma produção cinematográfica, seja ela pequena devido uma colaboração monetária menor, ou maior e mais envolvida com a produção, ainda sim uma interatividade que não é proporcionada pelas produções provenientes de grandes estúdios da meca do cinema internacional.

Tanto a arte, quanto seu poder de influência continuará se expandido ao longo do tempo, mas agora vemos um cenário onde suas mensagens são feitas e compartilhadas por uma massa maior, com vertentes ativistas e políticas de forma a direcionar outras pessoas a seguirem seus respectivos pensamentos e somente o tempo nos dirá até que nível elas conseguiram atingir com isso.

 

REFERÊNCIAS:

http://seer.ucg.br/index.php/panorama/article/viewFile/3449/2020

http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/15422/1/almeida_definicao_arte_artigo.pdf

http://criticanarede.com/est_lake.html

http://super.abril.com.br/ideias/inaugurado-o-primeiro-museu-de-memes-do-brasil/

Anúncios

A acessibilidade sob os olhos ativistas

A internet é para todos. mas será que ela é acessível a todos mesmo? Ou existe a necessidade de algum tipo de normalização para que ela cumpra o seu papel de integrar socialmente, as pessoas que possuem algum tipo de deficiência?

Vamos fazer alguns testes bem simples:

Teste 1

Preencha o formulário abaixo com os olhos vendados.

Teste 2

Assista o episódio 1, da Websérie “A Solteirona”, com o som desligado, e coloque a legenda em português (para fazer isso, ative primeiramente a legenda, depois entre nas configurações e coloque na língua portuguesa)

Então, o que você sentiu? a sua experiência foi completa, ou prejudicada?

Esses são apenas dois problemas que parte de 46 milhões de brasileiros que possuem algum tipo de deficiência precisam enfrentar todos os dias, pois a sociedade, por aqui, ainda não caminhou o suficiente para se adequar as mais de 200 milhões de pessoas que vivem nesse país.

Porém muita coisa já mudou, antes e depois da Internet.

No Texto, “A Trajetória da Inclusão” presente no livro “Acessibilidade e Tecnologia”, os autores dissertam sobre a evolução da inclusão de pessoas com deficiência, que antes eram relegadas, consideradas inúteis. Entretanto, aos poucos esse quadro foi mudando, na época do Renascimento, inciam-se os primeiros tratamentos terapêuticos frente a deficiência.

Já no Brasil, os primeiros cuidados às pessoas com deficiência retomam à época do Império, porém houve um grande fracasso social para compreender essa condição de maneira institucionalizada, então na segunda metade do século XX foi necessário a criação de leis que integrassem essas pessoas, socialmente, de “maneira normal”.

Nos primeiros anos do século XXI houve uma evolução sobre essa questão, na medida a compreender que essa questão deve transcender o discurso moral e sim de respeito às diferenças, assim como devemos respeitar os negros, religiosos, homoafetividade, na medida que as politicas a serem criadas agora devem perpassar por esse viés.

 UMA MINORIA DE DIREITOS

Assim como negros, gays, mulheres, entre outros. Os deficientes são a minorias no que diz respeito à direitos, sofrem preconceitos e são marginalizados pela sua condição, sendo necessário uma mudança social para que eles possam serem inseridos socialmente.

Por exemplo, no vídeo acima, existem dificuldades de um surdo acompanhar toda a história mostrada, assim como, para um cego que não pague por um computador caro adaptado que terá dificuldades de acesso. Porém, algumas mudanças podem ser feitas, como no vídeo abaixo que é apresentada uma receita, onde um surdo pode acompanhar tanto pela legenda, como na língua de sinais.

 

Nesse processo os movimentos sociais também são extremamente relevantes, a exemplo do Movimento Vida Independente, que foi criado na década de 1980, e desde aquele período defende os seguintes preceitos: independência, autonomia, empoderamento, autodeterminação, participação e igualdade de oportunidades, e por meio dessas discussões, foram criados dezenas de documentos que hoje estão em domínio público, podendo ser acessado por qualquer pessoa, em qualquer lugar, sendo então, um importante canal para o conhecimento acerca das pessoas com deficiência.

CUIDADO COM A FALTA DE REPRESENTATIVIDADE

Todo cuidado é pouco para não confundir o apoio à causa, com a retirada do protagonismo. O caso mais recente ocorreu em 2016, quando os atores Cleo Pires e Paulo Vilhena tiveram partes do seu corpo retirados em um ensaio para a revista Vogue. Muito criticados nas redes sociais, os atores afirmaram que nada mais era do que apoio às Paralimpiadas de 2016 que ocorreram no Rio 2016. Porém o maior questionamento, se refere não a falta de sensibilidade, mas representatividade da pessoa com deficiência sobre a própria causa.

cleo

Enquanto isso, a Revista britânica Sport Magazine chamou atenção para as Paralimpiadas do Rio 2016 prezando pela representatividade, da qual a Revista Vogue Brasil resolveu não se atentar, ou pior, pode ter realizado de maneira proposital, com aquela ideia de que “os fins justificam os meios”.

Jordanne-Whiley

A revista Vogue resolveu ignorar várias recomendações relativa à pessoa com deficiências, muitas delas descritas no Mini-manual de Jornalismo Humanizado , onde a autora recomenda o cuidado com o uso de termos e expressões, além do cuidado de explorar a pessoa com deficiência, ou ainda imputar, em um editor de imagens a falta de determinado parte do corpo de pessoas que não possuem à referida deficiência, só com o intuito de chamar atenção.

É HORA DE TODOS PARTICIPAREM

As possibilidades das pessoas apoiarem à causa da pessoa com deficiência são infinitas, especialmente com advento da internet. Vale mostrar prédios que não cumprem as normas estabelecidas pela ABNT, observar as redes sociais como um espaço democrático,  sendo assim, existe a possibilidade de vários deficientes acessa-las, então facilitar o linguajar e conteúdo produzido também contribui para causa, tal como a não retirada do protagonismo, no momento em que for necessário e conviver sempre, respeitando às diferenças.