Pra onde vai o seu iPhone?

Mal conseguimos comprar o desejado celular modelo 6, já aparece uma ordinária letrinha “S” na história. E ela vem como um sinal do maior aprimoramento de todos os tempos, cujo resultado é: o modelo 6S.  Aí agora a batalha é juntar recursos pra conseguir ter esse 6S na mão porque parece que o 6, que até então nos atendia muito bem, ficou assim, sei lá, meio… velho!

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Essa história do novo ficar velho rapidinho não é de hoje. Na verdade é de hooooooje. O nome deste evento é obsolescência programada e foi criado pelo norte-americano Bernard London, um investidor imobiliário, que sugeria a obrigatoriedade de uma vida útil mais reduzida para os produtos, como forma de impulsionar a economia, que passava pela crise de 1929. (Se quiser saber mais sobre obsolescência programada e seu impacto no consumo, clique aqui.) Você conhece alguém que se desfez de um celular com poucos meses de uso ou já soube de uma impressora nova que durou apenas um ano e logo apresentou algum defeito? Pois é. Parece que antigamente as coisas duravam mais, né?

De certa forma compreendemos que na sociedade da informação em que vivemos hoje, as várias mídias existentes se co-relacionam por meio dos vários suportes (a possibilidade de assistir a televisão na internet, ouvir a rádio na TV por assinatura, e assim por diante). Isso provocou intensas mudanças que confluem para caracterizar a chamada “Cultura da Convergência”, como afirma Jenkins na introdução do seu livro “Cultura da Convergência” (clique aqui). Se ontem, no orkut, era possível publicar somente 12 fotos no perfil, hoje é possível publicar uma quantidade quase infinita no Facebbok. E com isso, nossos celulares precisam se atualizar, sendo mais robustos e potentes. Não é verdade?

Ao invés de somente ligar, mandar a mensagem e ter o joguinho da cobrinha, os smartphones hoje são ligados a internet, têm GPS, câmera digital, agenda, rádio, calculadora, acessam sua conta no banco… E poderão fazer mais coisas no futuro, com a chegada do Iphone 8, 9, 10 e quem sabe, daqui a alguns anos o iPhone 997764734765472374….

Então é claro, como não ter um dispositivo moderno e atual se vivemos numa era de liberação do pólo de emissão da informação e todos podemos emitir conteúdo de forma livre, variada e com alcance planetário? Na comunicação pós-massiva, conceito explicado por André Lemos, produzir, fazer circular e acessar cada vez mais informação é algo corriqueiro e banal para nós.

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Pois bem. Todos querem acesso e conexão. Todos podem produzir conteúdo e, para isso, todos precisam de dispositivos top que, infelizmente, rapidamente se tornam ultrapassados. Jenkins, ao discorrer sobre cultura da convergência também explica que essas mídias não irão sumir ao longo dos anos e sim se adaptar. Mas… o que fazemos com os aparelhos eletrônicos que tinham objetivos diversos e que agora são, simplesmente, substituídos?

Na sociedade da obsolescência planejada tudo vira lixo, pois quanto mais rápida e passageira for a vida útil dos produtos, maior o descarte. O sentimento de que é necessário ter um novo aparelho produzido. E isso o sociólogo Zigmunt Bauman chama de “economia do engano”, O consumidor é convencido de que precisa de algo supérfluo e a desprezar o que já tem. A tensão entre a insatisfação e o desejo frustrado é constante.

Por exemplo, blog bastante interessante sobre séries, fez um artigo sobre como esse formato midiático se atualizou nos últimos 50 anos (IS2Series), e como nós consumidores nos adaptamos. E se na década de 1990, usávamos o VHS e fita cassete, hoje, estamos mais próximos da era do streaming, onde só é necessário uma televisão/computador/smartphone com conexão online.

Ai eu pergunto pra vocês? Onde foram parar os milhões de aparelhos de VHS e fitas cassetes produzidas ao longo de 50 anos? Com certeza, muitas das respostas irão versar sobre: “joguei no lixo”, “dei para amigos e parentes”, “vendi pro sebo”. E talvez alguns de vocês digam: “guardei, daqui a alguns anos será vintage” (mesmo assim é impossível guardar tudo), “só o que me traz uma memória afetiva está guardado”. Ou seja, mesmo que parte desses aparelhos estejam guardados, a maioria deles sucumbiu ao lixo eletrônico.

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E aí, chegamos a seguinte questão: o destino que o lixo eletrônico, ou e-lixo, tem. A lei federal 12.305, que trata do destino dos resíduos sólidos, diz que os fabricantes são responsáveis solidariamente por dar um final correto aos equipamentos eletrônicos. Eles deveriam recolher os dispositivos e destino-los à reciclagem ou aproveitamento de parte dos componentes. Isso depende também do comportamento do consumidor, que precisa solicitar o recolhimento pelo fabricante ou fazer a doação ou entrega em locais apropriados para reaproveitamento ou descarte. Portanto, a responsabilidade com o lixo eletrônico é dos fabricantes, comerciantes e consumidores.

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Mas não é incomum que os aparelhos eletrônicos sejam esquecidos na gaveta ou descartados junto com lixo doméstico comum, sem qualquer preocupação com o ambiente. E sem perspectiva de aproveitamento financeiro, pois os equipamentos podem ser inclusive vendidos como de “segunda-mão”. O comércio de e-lixo rende dinheiro para quem investe na recuperação, reutilização ou, reaproveitamento dos componentes.

Mas mesmo que o lixo eletrônico tenha um descarte adequado, ainda é preocupante a quantidade que é produzida. No ano de 2014 cerca de 41 milhões de toneladas métricas de e-lixo foram produzidos no mundo todo. Não tem como reciclar ou revender tudo isso, não é? Por isso, países como os Estados Unidos “exportam” todo o lixo excedente para países africanos ou asiáticos. Lá os equipamentos acabam em imensas montanhas de resíduos, oferecendo risco à população catadora de lixo, pois é potencial a contaminação por mercúrio e chumbo. A exportação acontece porque é mais barato levar tudo que é descartado para esses países do que reciclá-los em seu próprio país. No Brasil o destino mais comum são os lixões e aterros sanitários.

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A questão do e-lixo preocupa bastante os grupos ativistas ambientais. A Basel Action Network (BAN), por exemplo, é uma organização não-governamental (ONG) americana  fundada em 1997, que se aplica a esta área. O nome da ONG -Basiléia- faz referência á Convenção de Basiléia, da ONU (1989) que restringe o comércio de resíduos perigosos entre países desenvolvidos e países menos desenvolvidos.  A BAN atua em dois fluxos, cobertos pela Convenção de Basiléia: e-lixo, tipo de resíduo cuja quantidade de produção mais cresce no mundo e navios velhos, que não são mais navegáveis. O objetivo principal da BAN é evitar o despejo de poluição nos países mais pobres do mundo. Para isso, acreditam que a reciclagem deve ser verdadeira e socialmente responsável e assim, seria uma saída eficaz para este problema.

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No Brasil, a Associação Ativista Ecológica (AAECO) com sede em Bento Gonçalves – RS, nasceu com o objetivo de implantar um ponto de coleta de lixo eletrônico na cidade.  A associação recebe os resíduos e destina à reciclagem especializada. A  AAECO é uma referência sobre o tema na região e também recebe denúncias de crimes ambientais relacionados a esse tipo de resíduo.

Aqui no Pará, existe a possibilidade de fazer o descarte de dispositivos eletrônicos domésticos de maneira adequada. A Descarte Já é uma cooperativa que recebe gratuitamente lixo eletrônico e sucata de informática. A coleta pode ser agendada e a empresa atende os municípios de Belém, Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa Isabel, Santa Bárbara e Castanhal.

A ONG No Olhar é outra organização que trabalha com e-lixo em Belém. A coleta é feita há pouco tempo e a ONG ainda busca parceiros para aumentar a capacidade de trabalho. O material doméstico é aceito em pequenas quantidade e empresas precisam agendar previamente a entrega de produtos para avaliação.

A cooperativa Concaves (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis) coleta e separa diversos materiais recicláveis e o lixo eletrônico também está na lista deles. A Concaves realiza também um programa de educação nos bairros do Guamá e Terra Firme, a fim de aumentar a consciência ambiental dos moradores.

Se você quiser ser um consumidor mais afinado com a questão ambiental, veja essas dicas aqui para ser um usuário “verde” de tecnologia. E aproveite para pensar um pouco mais sobre os efeitos de nosso consumo desvairado. “Mais laços humanos, menos bens de consumo.”

Nossa proposta não é que você se torne um museu com produtos século I. Afinal de contas, até os museus já se adaptaram as novas tecnologias dos dias de hoje. A ideia é que sejamos mais afinados e conscientes na relação produto X consumo provocado pela cultura da convergência. É interessante avaliar antes de realizar as trocas de nossos dispositivos; se realmente vale a pena trocar o Iphone 6 pelo Iphone 7 só porque a câmera passou de “8.0 megapiexel” para “8.01 megapiexel”.

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Referências Bibliográficas

BAUMAN, Z. Vida para consumo. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

JENKINS, H. Cultura da Convergência. Aleph: RJ, 2009 (Introdução – p.25-51)

LEMOS, A. Territórios recombinantes: arte e tecnologia – debates e laboratórios, São Paulo, Instituto Sérgio Motta, 2007, p. 35-48.

 

 

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